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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Modelo de Resumo Expandido - Unicentro Guarapuava/PR

SOBRE A INTERPRETAÇÃO HEGELIANA DE HERÁCLITO
Carlos Eduardo da Silva Faria, e-mail: car_faria@hotmail.com.br
Graduando de Filosofia, Universidade Estadual do Centro-Oeste - UNICENTRO

Palavras-chave: Heráclito, Hegel, Dialética. Logos, Processo.

O presente trabalho consiste numa tentativa de verificação dos pressupostos da interpretação hegeliana de Heráclito, nos limites de uma determinação do sentido e do alcance da mesma. Para isso, buscar-se-á explicitar os pressupostos mais evidentes assumidos por Hegel nas Preleções sobre Heráclito, das Preleções sobre a História da Filosofia, como tais publicadas no volume Os Pré-Socráticos (Abril Cultural, 1978) da Coleção Os Pensadores, no caso, enquanto comentário aos Fragmentos de Heráclito. Mostrar-se-á, enfim, que, embora Hegel interprete Heráclito a partir de sua própria Filosofia, não há como não reconhecer a filiação de Hegel a Heráclito e, portanto, a consistência de sua retomada e desenvolvimento do Logos heraclítico. Assim, a partir da compreensão hegeliana de que o Absoluto só pode ser apreendido enquanto processo e da concepção heraclítica do Logos, discutir-se-á em que media a ideia do movimento ou do devir segundo Hegel se aplicam a Heráclito.
De acordo com Heráclito, no sentido da interpretação hegeliana, o Logos é não só a razão das coisas, mas o fogo que as ilumina e nos permite vê-las; por conseguinte, ele é não apenas o "sentido" do real, mas o pensamento ele mesmo e, mais ainda, a própria sabedoria. Isso porque, ainda segundo Heráclito, “ser sábio consiste em saber que o pensamento governa todas as coisas por meio de todas as coisas” (DK 40). Assim, em Heráclito, se podem constatar duas formas de pensar: uma, que apreende as coisas de imediato representando-as para si; e a outra, que compreende as coisas como desdobramento do que é comum, ou seja, do Logos. Nessa medida, conforme tal interpretação, pode-se dizer que Heráclito compreende a natureza enquanto processo, assim como o Absoluto enquanto devir e unidade ou unificação dos opostos. Essa razão pela qual, neste sentido, o Logos não pode se dar senão a partir da luta (pólemos) dos contrários, ou seja, apresentando-se pois como a unidade das diferenças; unidade essa que é o devir, o movimento, como salienta Heráclito: “o contrário é convergente e dos divergentes nasce a mais bela harmonia, e tudo segundo a discórdia.” (DK 8).
Hegel afirma que Heráclito é o primeiro filósofo a conceber a realidade como uma síntese de contrários e que reconhecer isto é assumir que só há conhecimento a partir da unidade dos opostos. Dessa forma, o Logos é visto como devir e a realidade como processo. Dessa maneira, a filosofia de Heráclito fixa-se no entendimento da realidade absoluta como processo mediado pelo Logos e sem pressupostos particulares (imediatos). O movimento é o princípio (arché) do Todo, dado pela oposição de um ao outro, ou seja, pela mediação dada a partir de uma negação determinada. E aqui encontra-se a singularidade de Heráclito: admitir o negativo determinado como propulsor do conhecer, da verdade. Para Heráclito, há um Logos que perpassa o cosmos e manifesta-se conscientemente no homem. O homem pode escolher entre duas vias, a saber, a imediata que se dá pelo entendimento particular do sensível e a mediata ou conforme o Logos. Se isto é assim, há que se reconhecer, então, que o Logos só pode ser apreendido quando se pensa conforme a unidade dos opostos ela mesma, que é o resultado da negação da oposição do ser e do não-ser; quando, ao fim e ao cabo, em Hegel, a referida unidade poderá também designar-se negação da negação ou negação determinada.
Todavia, as expensas de Hegel ou, antes, de sua interpretação, há também que se levar em conta que Heráclito defende a mudança constante de todas as coisas; sendo esta o processo infinito no qual ou mediante o qual tudo regressa ao seu início, isto é, o conflito dos opostos que – em consequência de tal conflito – se diluem na unidade originária. Diante desse reconhecimento, pode-se depreender que o Logos (então concebido nos limites da concepção heraclítica) se apresenta como o princípio cósmico (tomado como elemento primordial) e assim como, a própria razão de ser do real; agora, se desse modo o Logos se mostraria, também, como “a inteligência”, esse não é necessariamente o caso de Heráclito, seja por razões históricas, das quais o próprio Hegel é bastante cônscio, seja, por razões propriamente filosóficas. Não obstante, Hegel está correto em afirmar que, para Heráclito, a verdade se encontra no devir (enquanto unidade do ser e do não-ser), não no ser (pura e simplesmente) em sua oposição ao não-ser; aqui parecem encontrar-se os pressupostos de Hegel e de Heráclito, ainda que tais pressupostos se apresentem diversamente em cada um dos filósofos.
Isto significa que, enfim, tanto para Hegel como para Heráclito, o pensamento humano participa e é parte do pensamento universal, com este se identificando em certa medida. Em vista disso, caso aprenda a ver as coisas segundo sua verdade, isto é, em seu próprio devir, os homens podem perceber como os contrários estão em eterno conflito, numa constante mudança de um estado para outro; assim como, ao fim e ao cabo, ambos os opostos terminam por se tornar uma e a mesma coisa. Como síntese, união desses conceitos opostos (e intimamente relacionados), surge o devir, nas palavras de Hegel: “O nada, como este imediato, é similar a si mesmo, e inversamente o mesmo que o ser. A verdade do ser tal como a do nada, portanto, é a unidade de ambos; esta unidade é o devir.” (HEGEL, 1995). Se isto é realmente assim, pode-se dizer, então, que mesmo em interpretando Heráclito segundo sua própria Filosofia, Hegel permanece fiel aos pressupostos da de Heráclito na medida em que os retoma e desenvolve nos quadros de sua Lógica especulativa, mais especificamente, nos quadros da determinação do ser chamada ‘devir’.

Referências bibliográficas

COSTA. A. Heráclito: fragmentos contextualizados. Tradução e comentários por Alexandre Costa. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

DAMIÃO, B. O Logos heraclítico: introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.

HEGEL, F. [Preleções sobre a História da Filosofia. Heráclito – Crítica Moderna]. In: Os Pré-Socráticos. Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo, Abril Cultural, 1978.

_______. Enciclopédia das Ciências Filosóficas em Compêndio (1830). Trad. Paulo Meneses e José Machado. São Paulo: Loyola, 1995.

HERÁCLITO DE ÉFESO. Fragmentos. In: Os Pré-Socráticos. Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo, Abril Cultural, 1973