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sexta-feira, 29 de abril de 2011

O Lógos em Heráclito

O Lógos em Heráclito

Carlos Eduardo da Silva Faria (ICV - UNICENTRO/PR
Orientador: Manuel Moreira da Silva (DEFIL - UNICENTRO/PR)

O presente trabalho tem por objetivo explicitar a noção heraclitiana do Lógos e a posição mesma de Heráclito como enunciador do Lógos. Do estudo dos aforismos de Heráclito emerge uma série de questões relativas à verdade e ao conhecimento; mais propriamente, à verdade e ao conhecimento do próprio Lógos. Do ponto de vista de Heráclito, a verdade consiste em captar, para além dos sentidos, a inteligência que governa todas as coisas; ao passo que o conhecimento implica na compreensão e na explicitação da racionalidade imanente a tal inteligência e ao governo que ela preside – no caso, o modo pelo qual, em última instância, todas coisas se referem à inteligência e se apresentam então ordenadas segundo a racionalidade ou a inteligibilidade que daquela emana. Por conseguinte, pode-se dizer que, para Heráclito, a questão que – pelo menos aqui – se apresenta como a mais importante, parece ser a de como é possível aos homens alcançar esse conhecimento e essa racionalidade. Tal é o que se pode verificar nos fragmentos tomados como válidos, nos quais predominam o gos e a relação com o seu próprio conhecimento, esse que, de um modo ou de outro, como que também se apresenta a Heráclito como a natureza fundamental do homem. Razão pela qual Heráclito ele mesmo fala “em ouvir o Lógos”, isto é, ouvir a natureza fundamental do homem. Essa a questão que então nos dispomos explicitar: Em que medida é possível ao homem ouvir o Lógos e em que medida em possível enunciá-lo?
De acordo com Heráclito, o gos está sempre presente e os homens que não se predispõem a ouvi-lo não o conhecerão como tampouco terão capacidade de falar e de pensar no verdadeiro sentido destas palavras; quer dizer, falar e pensar o Lógos. Isso porque o Lógos não é pura e simplesmente a palavra como tal e, justamente por isso, não pode ser reduzido (ou empobrecido) a uma questão meramente linguística ou mesmo a uma questão relativa à linguagem em sua significação comum ou apenas exteriormente ou aparentemente humana. No que diz respeito a esse ponto, há que se reconhecer que o Lógos está muito além do homem, enquanto ser pura e simplesmente mortal, portanto como ser exterior, aparente; caso em que o Lógos se apresenta ao fim e ao cabo como o Lógos divino ele mesmo e, assim, como a vida em toda a sua pujança – por conseguinte, identificando-se com a Physis em sua totalidade. Neste sentido, por um lado, deixar de se envolver diretamente no que está vivendo é como nada vivenciar em primeira mão, por outro, isso significa que o homem só se torna homem pela escuta; mas escutar, aqui, é mais do que apurar os ouvidos, é antes um treinamento ao bem-pensar – isso porque, no dizer de Heráclito, só é possível dizer coisas verdadeiras e agir conforme a natureza, escutando-a, razão pela qual aqueles que não a escutam, diz Heráclito, são “pessoas que não sabem ouvir, nem falar”. No entanto, saber ouvir ou falar o Lógos não é algo necessariamente estranho ao homem; pois, de acordo com Heráclito, no Lógos, o saber, o tomar ciência, mostra-se instantaneamente, sem intermediários. Basta estar desperto, estar na escuta, fato que só é possível durante a ocorrência da coisa, jamais depois.
Por isso, o Lógos apresenta-se fundamentalmente como a voz interior, como que uma espécie de consciência, que é justamente aquela voz que deve ser ouvida. Na medida em que pode ser conhecido, o Lógos também nos permite conhecer por exemplo a natureza do ser, apresentando-se assim como a alma que envolve e que liga os homens ao cosmos e à divindade; caso em que, assim como o Lógos, o cosmos também é ou está em cada um de nós. Isso quer dizer, para Heráclito, que se pode conhecer o mundo seja pelas coisas sensíveis que nele se mostram, seja através da captação daquilo que não se mostra; fato que introduz no tema do Lógos a significação de que ele, de acordo com Heráclito, devém ainda conflito e morte. O que se explica a função de que o Lógos, além de ser aquilo que se conhece, também se mostra como um feixe, situação em que os contrários se encontram e chegam ao equilíbrio; tratando-se aí, por conseguinte, da figura subjacente do Uno-todo. Vale dizer, para o filósofo: todo homem, enquanto parte do cosmo, participa do Lógos universal, mas existem diferenças entre o modo de pensar ou de conceber essa participação por parte dos indivíduos; alguns, os “adormecidos” limitam-se às percepções imediatas, vivem como num sonho e desenvolvem opiniões subjetivas; outros – os “despertos” – utilizam o Lógos de bom grado e conseguem penetrar profundamente na verdade da natureza. Ao fim e ao cabo, esses últimos mostram-se então capazes de aceder à ordem ou à harmonia do Todo, e isso justamente pelo fato de não reduzirem o Lógos a um ou outro de seus elementos constituintes, mas, em concebendo-o enquanto unidade de pensamento, palavra e ação, captam seu aspecto propriamente universal.
Enfim, pode-se dizer que compete ao Lógos, ou antes ao seu enunciador, dizer a verdade; isto é, ser portador da sabedoria e do envolvimento com aquilo que investiga e enuncia. Desse modo, o Lógos se constitui mediante dois tipos de referência possíveis; de um lado, ele se refere às coisas, e, de outro, aos homens, que então se mostram como seus ouvintes e, mais precisamente, como seus enunciadores – por conseguinte, o Lógos não é um Lógos retórico, mas sim, ao contrário, um Lógos propriamente filosófico.
Em Heráclito, portanto, o Lógos está sempre ligado ao cosmos ou ao pensamento. Ele age sobre a ordem cósmica e a governa, bem como determina a distinção entre o pensamento particular e o pensar comum a todos, o pensar com sensatez. Para que se determinem seus atributos deve-se compreender também que é apreensível e compreensível; quer dizer, entender o Lógos significa entender também sua relação com a inteligência dos homens. Os que não possuem inteligência são justamente os incapazes de compreender o Lógos. Todas estas sentenças anunciam uma relação interrompida entre o homem e o Lógos. Sendo assim, governando o Lógos todas as coisas, e sendo o homem capaz de reconhecê-las através da inteligência.

Palavras-chave: Enunciador; Lógos; Razão; Universal; Aforismos.