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quarta-feira, 15 de junho de 2011

Resumo da vida de Heráclito de Éfeso

Membro de uma família aristocrática –, Heráclito nasce em Éfeso, colônia ateniense localizada na costa da Lídia, na Ásia Menor, às margens do rio Cáistro. As origens de Éfeso perderam-se. Mas, segundo uma velha tradição, conservada por historiadores, um grupo de messénio-áticos deixa a Grécia para colonizar a Jônia, chefiado por Ândroclo, filho de Codro, rei de Atenas. Ao chegarem ao porto, os gregos não encontraram resistência dos residentes, mas destruíram o povoado Cário, próximo ao rio, e iniciaram a construção de sua própria cidade, na qual ergueram um templo a Apolo, perto de um santuário da Deusa-Mãe asiática, que, identificaram à sua Ártemis. Fundada por um filho do rei, esta veio a ser considerada metrópole do reino jônico.
Desde o início, Éfeso teve um governo monárquico-aristocrático. Entretanto, com o passar do tempo, fizeram-se sentir tendências libertadoras, já sob os filhos do fundador, que se fortaleceram e conseguiram, aproximadamente no século VII a.C., transformar a monarquia em uma república aristocrática. Após grandes revoluções, tomadas de poder e governos tirânicos, numa época, política e economicamente agitada, mas notável pelo surto do pensamento, assim num sentido mais racional, é que se situa a vida de Heráclito.
Não se sabe exatamente o ano de seu nascimento, sua acmé¹ teria incidido na 69ª olimpíada, entre os anos de 504/1. Nasce, pois, entre 544/1, e morre aos 60 ou 70 anos, conforme descrito por Diógenes Laércio, entre 484/74. Heráclito descende da família real de Ândroclo. Goza, assim, do título e prerrogativas reais, dos quais, abdica em favor de seu irmão, desinteressando-se por tal condição por não se impressionar por tal posição aristocraca. Nada se registra de sua formação. O mesmo Diógenes Laércio o chama de autodidata, não o enquadrando em nenhuma escola da época, resistindo assim, a qualquer catalogação. Uns como Sócion de Alexandria diz, que Heráclito, é aluno de Xenófanes, e Suidas coloca-o como ouvinte também, de Hípaso e Pitágoras: essas últimas informações incertas e duvidosas. A posição e a tradição de sua família e suas próprias habilidades tendem a encaminha-lo para a política, aspiração suprema do homem grego antigo.
Mas, contudo, sabe-se pela tradição, de seu descontentamento com os governantes, sua aversão pelo vulgo, pela mostra de grande desprezo pelas massas e pelos princípios democráticos de sua época. Vulgo, que no entender de Heráclito, não é uma classe, mas um comportamento. É a atitude mental dos homens, que não se esforçam por ir além das aparência intrínseca das coisas e, bem como a falta de atitude moral – a incapacidade de uma vontade própria. Entendendo ele que tais atitudes existem entre a maioria dos homens.
Consta que Heráclito é amicíssimo de Hermodoro, um dos próceres do governo de Éfeso. Um governo, porém, nem tirânico, forma extinta nesse período ou propriamente de caráter aristocrático, mas tido como empenhado pela liberdade do povo. Uma das armas mais eficientes de que Atenas dispunha para proteger sua liberdade é o ostracismo².
Uma das armas mais eficientes de que Atenas dispunha para proteger sua liberdade é o ostracismo4. Este mesmo ostracismo veio a ser adotado por Éfeso, tendo sido seu introdutor, com a ajuda de Heráclito, o próprio Hermodoro.
Hermodoro e Heráclito, conforme Diógenes Laércio, trabalham juntos, pelo bem do povo efésio. Diz, que Hermodoro, é o principal inspirador da legislação da cidade. Leis sábias e ponderadas, protegidas sim, pelo ostracismo, eficientes ao ponto que Heráclito recomenda ao povo que as conserve. Como o fazem ao defender os muros da cidade: “[...] É preciso que lute o povo pela lei, tal como pelas muralhas.” (DK 44, 1978, p. 83), pois dela advém força inspiradora da própria divindade. Diz ele:

(Os) que falam com inteligência é necessário que se fortaleçam com o comum de todos, tal como 

a lei da cidade, e muito mais fortemente; pois alimentam-se todas as leis humanas em uma só, a 

divina; pois, domina tão longe quanto quer, e é suficiente para todas (as coisas) e ainda sobra. 

(DK 114, 1978, p. 90).

Heráclito, trata com rispidez os poetas, ante o fato que estes serem os educadores da juventude, julgando-os ineptos e despreparados; condena algumas epopeias e poesias líricas apresentadas nos festejos, ao seu ver, com composições inconvenientes e também, faz críticas aos ritos e demonstrações, durante as festas de Ártemis e Dionísio, os quais facilitam a imoralidade e com suas orgias desenfreadas.
Disso comenta: “[...] Se não fosse a Dionísio que fizessem a procissão e cantassem o hino, (então) às partes vergonhosas desavergonhadamente se cumpriu um rito; mas é o mesmo Hades e Dionísio, a quem deliram e festejam nas Lenéias.” (DK 15). E, não concorda com práticas religiosas supersticiosas do povo; nem sua maneira de orar em dirigindo-se a simulacros, preferindo uma religião mais espiritualizada, Heráclito ressalta:

"Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se 

lavasse. E louco pareceria, se algum homem o notasse agindo assim. E, também a estas estátuas 

eles dirigem suas preces, como alguém que falasse a casas, de nada sabendo o que são deuses 

e heróis". (DK 5).

Pelo racionalismo de Heráclito e seus ataques às massas e aos cientistas de sua terra, bem como certos acontecimentos abalam a posição de Hermodoro, na execução de seus métodos, pouco conciliáveis com a liberdade, provavelmente tenha desencadeado ou precipitado desfechos inesperados, tanto para um quanto para o outro. O povo, então, receoso por talvez perder seus privilégios, volta-se contra Hermodoro aplicando-lhe, ao que parece, o ostracismo que ele mesmo, teria importado. Heráclito, ao seu tempo, indigna-se com a atitude de seus contemporâneos, e exalta:


"Merecia que os efésios adultos se enforcassem e os não-adultos abandonassem a cidade, eles 

que a Hermodoro, o melhor homem deles e o de mais valor, expulsaram dizendo: que entre nós 

ninguém seja o mais valoroso, senão que se vá alhures e com os outros". (DK 121).

Após o ocorrido, Heráclito, narra Diógenes Laércio, rompe com Éfeso e retira-se da cidade, refugiando-se nas montanhas, alimenta-se de ervas e plantas. Tornando-se misantropo, melancólico, como que imitando os refugiados no exílio. Mantendo-se em altivo isolamento e em oposição ao resto da sociedade. Essa postura transparece nos seus escritos, especialmente quando contrapõe os melhores (homens) à maioria, como sugere uma das suas máximas: “[...] Um para mim vale mil, se for o melhor”. (DK 49).
O seu comportamento às vezes contraditório, talvez explique algumas extravagâncias, a começar pelos vários relatos quanto à sua morte. Segundo ainda D. Laércio, acometido de hidropisia, devido a sua dieta, Heráclito desce à cidade e pôs-se a perguntar de maneira enigmática aos médicos se o podiam curar; sem se fazer compreender, enterra-se num estábulo, e espera assim que a água em seu corpo evapore com o calor do estrume. Assim, finda a sua vida. Outras versões apresentadas como as de Hermipo e Neantes de Cizico, tem-se: do primeiro, que o efésio deita-se ao sol e pede aos criados que o cobrissem com esterco. Desse modo fica e falece no dia seguinte, sendo sepultado em praça pública. Do segundo consta que, tendo sido impossível retirá-lo de sob o esterco, lá permanece, e, em putrefação é devorado por cães. Já Aristão, escreve que Heráclito cura-se da hidropisia, falece, então, de outra enfermidade.
Escrever, para Heráclito, significa gravar frases curtíssimas, os aforismos tão profundos quanto ambíguos, sobre finas lâminas de ouro, que pela tradição, podem fazer parte do livro que lhe é atribuído Sobre a Natureza. Livro este, que o próprio Heráclito deposita no templo de Ártemis, ordenando aos sacerdotes que só tornem público o seu conteúdo após sua morte. Portanto, em certo sentido, quis ser um filósofo póstumo, recusando-se a falar aos pobres compatriotas, que sem meio termo, define como adormecidos, para dirigir-se à humanidade do futuro. Já asseveram alguns, que os aforismos heraclíticos não fazem parte de algum livro, mas, sim, de uma característica da escrita da época, na qual os aforismos ou frases curtas são de atraente e concisa forma de expressão, com objetivo de tornar o seu conteúdo de fácil compreensão e memorização. Através deste recurso, expressa principalmente os costumes e as máximas morais densas de conteúdo. Os fragmentos de Heráclito são produzidos nesse estilo. Nesse período, a forma falada é o principal meio de comunicação.
Logo, os vários acontecimentos da vida de Heráclito, como o de não participar de mau regime político, o convencimento a um tirano de abandonar o poder, a defesa do seu amigo Hermodoro e o de convocar os efésios a defender as suas leis, expressam a sua preocupação de cunho ético e social.
Heráclito, portanto, permanece na história como o filósofo do devir, mas a crítica contemporânea já demonstra que essa interpretação é redutiva: sob as aparências mais mutáveis, ele entrevê uma lei, um princípio unitário. Essa lei de interdependência dos contrários, segundo a qual cada par de opostos formam uma indivisível unidade, é o logos, a razão que governa todas as coisas. Mas, os homens, na sua maioria, são incapazes de ouvi-lo.

¹ Método cronográfico que tenta descobrir a acmé de um escritor, entendendo por ela a plena maturidade humana, atribuída, geralmente, 

aos quarenta anos. Confrontando certos fatos da vida do escritor. Uma vez verificada, a acmé conhecia-se o ano do nascimento; o óbito é 

sumariamente fixado entre os 60 a 70 anos. Conforme BERGE, D. O Logos Heraclítico. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, p. 

 51, 1969.

² Ostracismo (gr. Ostrakismos: forma de banimento). Na antiguidade grega, banimento por dez anos de um cidadão considerado perigoso 

ou de um político caído em desgraça. JAPIASSÚ, H. Dicionário básico de filosofia/ Hilton Japiassú e Danilo Marcondes. 4. ed. Rio de 

Janeiro: Jorge Zahar, p. 209, 2006.


Referência bibliográficas


DAMIÃO, B. O Logos heraclítico: introdução ao estudo dos fragmentos. Rio de Janeiro: Instituto 


Nacional do Livro, 1969.


DIELS, H. e KRANZ, W. Die Fragmente der Vorsokratiker. Vol. 1, 19. ed., Zürich: Weidmann, 1996.


HERÁCLITO. Heráclito (Fragmentos Contextualizados). Tradução, Apresentação e Comentários 


Alexandre Costa. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.


_______. Fragmentos In:______Os Pré-socráticos; fragmentos, doxografia e comentários. 2. ed. São 


Paulo: Nova Cultural, 1978. (Os Pensadores) p. 74-91.


LAÉRCIO, D. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. 2.ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 


1987.