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quinta-feira, 19 de maio de 2011

Ensaio: Vattimo pós-modernidade e niilismo


Carlos Eduardo da Silva Faria
Prof. Ms. Claudio César de Andrade
Universidade Estadual do Centro-Oeste – UNICENTRO
email: car_faria@hotmail.com

Partindo dos apontamentos, argumentações, bem como de ponderações, altamente, pontuais proferidas nas aulas de Tópicos Especiais em Filosofia I, pelo Prof. Ms. Claudio Andrade, no que tange as máximas filosóficas, se assim podemos ousar dizer, pois, não são apenas máximas, mas, sim, ao meu ver aprofundamentos de pensamentos filosóficos do nosso tempo, do filósofo Gianni Vattimo. Decidi-me por um ensaio a cerca, ao invés do estudo dirigido, mesmo assim, fazendo seu bom uso, do que Vattimo discorre a respeito, fazendo-se de seus pensamentos, em minhas palavras da Pós-modernidade e niilismo, este, também, sendo o título deste ensaio. Isto posto, lembrando que ao transcrever as interpretações minhas do tema, levo em conta os ensinamentos do caro professor e o pensamento 'sem imagem' pluralista e de diálogo com o autor de Deleuze, para melhor atingir os resultados para o exposto.
Na contemporaneidade, a cultura seja por meio da filosofia ou do desenvolvimento da ciência surge ou nasce de profundas, por assim dizer, destruições. Nós humanos atuais, vivemos em uma espécie de sensação de algo está dilacerado, desforme, uma sensação de incompletude. Vivemos em um tempo, e tem que habituar-se com essa sensação, de que nada é certo, nada é definitivo, nenhuma situação se mostra garantida ou que se tenha alguma certeza fundamental. Vive-se, pois, uma era de tribulações e de incertezas, talvez efeitos de fracassos de projetos civilizatórios culturais de tempos idos.
Para esse momento histórico que estamos vivendo, dão-se nomes diversos, para alguns vivemos ainda na modernidade, com os reflexos e efeitos da burguesia, outros que estamos na pós-modernidade com os conflitos da morte de Deus nietzschiano e a do sujeito, e, outros, mais entusiastas, dizem, estarmos diante de um momento de volta as tradições, em uma espécie de volta por cima dos reprimidos. Mas, de certo que este momento, como vimos em aula, não se pode nominar, não há condições de se dar um nome a essa época que vivemos.
Estamos devido a várias interpretações conflitantes, vivendo, então, na modernidade, na pós modernidade ou num momento pós metafísico. O que parecia certo e indubitavelmente correto e seguro, em termos de valores se perderam. Cotidianamente, nos deparamos com luta pelo dinheiro, o poder pela política, a liberdade por meio de grades, o matar para não morrer, a vida às vezes vazia de sentido, a liberdade contra a intolerância, logo, todos esses 'niilismos' decorrentes de um momento de cultura de simulacros, onde a vida é perpassada, não há sentido, a vida é vazia de valores, de sentimentos, não há crenças religiosas, nem tampouco, científicas, não há verdades, nem a sua procura, na minha leitura uma época do individualismo, do 'eu sobrevivente', do 'eu sozinho', do 'eu virtual'.
Num diálogo deste ensaio, com Gianni Vattimo, busco entendimento deste momento niilista e da inserção do pensamento débil, o pensamento fraco, neste contexto histórico. Pensamento fraco insurgido pela imanente decadência do pensamento forte, das estruturas até então dominantes. O pensamento fraco se inscreve no processo de secularização da filosofia para tornar-se, como diz Vattimo a filosofia da secularização.
Mas antes de tudo o que é niilismo? Que palavra de tom assustadora é esta? Então, niilismo pode ser entendido como aquela corrente do pensamento, que não aceita a certeza como possibilidade de conhecer a realidade em si; descrença absoluta, doutrina segundo a qual nada existe de absoluto. É como se se tudo fosse apenas obra de sua imaginação. Nietzsche, como aprendemos, fala de um niilismo passivo e outro ativo. Como definição seria o passivo aquele postulado pelo cristianismo, representado por verdades eternas e estruturas dadas e o ativo é a respeito de uma alteração, uma espécie de transmutação de todos os valores, é consciente de sua natureza hermenêutica, e, portanto, corresponde a uma forma de vida mais rica e aberta.
Em Vattimo, o niilismo é visto como uma chance, uma oportunidade nova. Logo, o niilismo, portanto, não é sinônimo de quebra ou desmembramento de valores, como costumeiramente se ouve, nem tampouco, uma crítica que refutasse os valores ou qualquer tipo de autoridade. O termo nihil (nada), embora conservando aquele significado original negativo, assumiu outras características, outras nuances. Aqui creio que podemos colocar como a ausência de fundamento e a falta de certezas, valores e verdades estáveis. Uma leitura do niilismo, segundo Vattimo, então, torna-se condição necessária para compreender a contemporaneidade. A problemática do niilismo, não vejo como problema, mas, sim, como interrogativa mesmo. O niilismo pode perguntar onde? Por que? Assim?
Gianni Vattimo conforme às bases indicadas por Nietzsche e Heidegger, busca avançar alguns passos no caminho de uma determinação mais precisa da pós-modernidade em filosofia. Em seu discurso fala em superação, uma nova postura diante diante dos postulados dos antigos ensinamentos, diante da tradição transmitida pela Metafísica, não no sentido de negação, mas, como um processo de recuperação metafísica. Com a dissolução das verdades absolutas – a verdade primeira que era Deus também se dissolve, e, portanto, Deus está morto. Numa interpretação de Vattimo, podemos inferir que é neste momento que se dá o nascimento da pós-modernidade em filosofia e surge o conceito nietzschiano do eterno retorno do igual, uma vez que não há mais o novo, que era produto da superação da modernidade. Este evento que se pode chamar do nascimento da pós-modernidade parte da morte de Deus. A morte anunciada e declarada de Deus é, portanto, de uma representação linguístico-religiosa de Deus – é a liberdade das algemas da metafísica tradicional, em especial da visão platônica.
Assim, ainda, nas bases indicadas por Nietzsche e Heidegger, Vattimo vai explicar três características do pensamento pós-moderno: é um pensamento da fruição, já que o evento não se remete a nenhum fundamento, só resta o uso e gozo daquilo que é imediato ao homem, acarretando, pois, questões éticas ainda pendentes; é um pensamento da contaminação, na medida em que se abre a possibilidade de se exercer a empresa hermenêutica não apenas para o passado, para a transmissão-recepção dos aspectos epocais do ser, mas também para uma contaminação em relação aos múltiplos conteúdos do saber contemporâneo, da ciência e da técnica e às artes, fragmentando assim a verdade fundacional, forte, metafísica, em várias outras verdades “fracas”, regionais e, portanto restritas; e por fim é um pensamento do mundo organizado pela técnica, em que a metafísica se consuma em sua forma mais desenvolvida e em que a ontologia se torna efetivamente hermenêutica e onde as noções de realidade e de verdade-fundamento perdem peso. É nessa situação, segundo Vattimo, que se deve falar de uma ontologia fraca como única possibilidade de sair da metafísica e pode ser que nisso resida, para o pensamento pós-moderno, a chance de um novo, debilmente novo, começo.
A morte de Deus mostra quão frágil é a ousadia por parte do homem, desvelando a produção metafísica que coloca a construção do ser a partir de uma perspectiva de identidade com o ente. Uma dupla anulação: o esquecimento do ser e a morte de Deus. Uma alternativa para o problema seria, em tese, pensar o ser sem o ser, ou seja, pensar Deus sem Deus, evitando assim, a velha e tradicional visão metafísica. Assim, no acompanhamento da perspectiva de Vattimo, o niilismo abre caminho para a filosofia interpretar novamente o ser em seu sentido próprio, coisa que a metafísica tradicional esqueceu. Para Vattimo, o niilismo diz respeito à experiência que Nietzsche resumiu na ideia da morte de Deus. Deus está morto enquanto não temos mais necessidade, nem ao menos àquelas formas seguras dos primeiros princípios oriundos da metafísica. Vale dizer, que na visão de Nietzsche, o futuro está vazio de valores, são todos valores em decadência, ou seja, valores niilistas. Trata-se de que se pode duvidar de tudo, o novo já não vale mais, é passageiro, aparece o fraco, o débil. Neste sentido, pode-se falar de uma ontologia fraca como a única possibilidade de sair da metafísica. Esta poderia ser ao menos para o pensamento pós-moderno, a chance de um novo começo.
Vattimo mostra a fragilidade do ideal de uma verdade absoluta, de um saber totalmente fundado, ou seja, de um mundo como sistema racional completado. Para Vattimo, portanto, o niilismo se constitui numa chance em dois sentidos: primeiramente num sentido político, mas também, no sentido da secularização. Nesse sentido, mexendo com o imaginário, com o psicológico, com o simbólico, devido a este desarraigamento do mundo, uma espécie de estabelecimento de novos valores supremos. A chance, como diz, Vattimo, depende também do modo – e, é o segundo sentido do termo – como vivemos individualmente e coletivamente.
A secularização, Vattimo compreende como um retorno do religioso, como uma característica desse momento em que vivemos, seja ele chamado de moderno ou pós-moderno. Isto se dá muito pelo avanço reacional e tecno-científico, características, também, desses tempos. Para Vattimo, a modernidade se destaca pelo novo, pela experimentação do novo, buscar a novidade para depois superá-la.
Em termos propriamente religiosos, a secularização não é o abandono da experiência e da tradição, é uma transformação de valores. Pode ser entendido, como a presença da religiosidade sem a religião, uma reconfiguração, se assim podemos dizer, da religiosidade tradicional. Vattimo enfatiza um retorno ao religioso, isso não impera que os indivíduos do ocidente tenham se afastado da religiosidade, fala ele de uma convalescença que precisa de uma reabilitação, de um retorno. Para tanto, apropria-se da concepção heideggeriana Verwindung como “conservação-distorção-esvaziamento”. Isso quer dizer, que a religião nunca esteve ausente, a sociedade à vivenciou de outras formas, sem colocá-la em um pedestal ou em um lugar central.
Apesar de ser a secularização uma característica da modernidade, Vattimo a enxerga como uma possibilidade na pós-modernidade. A religião volta ao centro do debate tanto na sociedade e da filosofia, mas de forma secularizada. Porém, sem os discursos metafísicos predominantes. Mas, não é porque não se pode provar Deus empiricamente que não se possa e crer ou se dar crédito para quem crê.
Portanto, pelo apontamentos de Vattimo, podemos inferir alguns pontos centrais do estudado até aqui, ou seja, que a secularização é o destino da filosofia e dos indivíduos, aponta essa época como findante da Metafísica, busca uma relação entre pensamento fraco e mensagem cristã, o pensamento débil em alta pela decadência do pensamento forte dominante. Propõe a volta da questão de Deus como assunto da contemporaneidade. Coloca a modernidade e pós-modernidade, em uma hipótese de mútua relação que permite uma releitura da relação entre modernidade e cristianismo. Expõem a hermenêutica como teoria filosófica capaz de dar razão às diversas imagens do mundo, mas pede atenção quanto as variantes interpretativas para não cair numa espécie de jogo, com o risco da hermenêutica tornar-se uma outra Metafísica. Aponta para uma hermenêutica niilista, uma hermenêutica da escuta – como caminho certo para o ser como sujeito histórico. Acena assim, como um novo tempo, onde o pensamento se dá como pensamento crítico, de uma escuta crítica – a hermenêutica como exercício do escutar interpretativo, não na angústia e ânsia de se chegar a uma conclusão, mas, sim, do interpretar do que está velado em desvelar-se.