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quarta-feira, 18 de maio de 2011

O devir heracliteano

Carlos Eduardo da Silva Faria - Unicentro - Guarapuava/Pr
Orientador Prof. Dr.: Manoel Moreira da Silva

Participando-se do Programa de Iniciação Científica (IC), sob orientação do professor Manoel Moreira da Silva, desenvolve-se pesquisa na área História da Filosofia Antiga, com ênfase no sistema do filósofo Heráclito. A presente comunicação tem por objetivo interpretar a noção de devir heracliteano.
A filosofia desde seu nascimento, que a problematização sobre a racionalidade surge como questão filosófica inquietante. Os sábios da antiguidade buscam respostas para a arqué – o princípio originário ou a substância primeira de todas as coisas. Tais princípios inicialmente foram: a água, o ar, o apéiron, etc., contudo, nem todos constituídos de causas materiais. Para alguns filósofos como Pitágoras, Demócrito, Parmênides, Heráclito; a racionalidade é constituída e atribuída a um princípio lógico, por coseguinte, partindo de um pensamento, também ordenado, a razão, assim constituída enquanto processo.
É de sobremaneira intuitivo que quando de uma tentativa de aproximação aos escritos de Heráclito se predispõe uma disposição contínua de encaminhamento para compreensão do seu discurso, bem como de deciframento dos seus enigmas propostos. Um deles tema aqui exposto, emergente de sua doutrina filosófica é a noção do movimento, do devir, do fluxo universal que anima todo o universo e todos os homens na sua existência.
Em contraposição ao conceito do imobilismo de Parmênides, Heráclito é o primeiro filósofo a pensar uma construção física explicativa do ser a partir de devir. Como os demais filósofos pré-socráticos, também pauta o seu pensamento na busca pelo arché – um princípio originário [primeiro e último], absoluto e anterior a tudo que existe ou existirá. Para Heráclito o ser é como puro movimento e transformação, tendo o devir como unidade que representa o ser, sendo o devir puro movimento, por conseguinte, reafirmando que tudo que existe está em contínuo movimento e transformação. Heráclito na sua observação da natureza e no decifrar de seus sinais, prega o lógos não como razão individual, mas como enunciador da verdade da natureza. A realidade da natureza e de tudo que existe que se revela na discórdia e necessidade. Um combate da luta dos contrários, de forças opostas; da discórdia e da necessidade. Entretanto, para Heráclito, forças opostas [discórdia e necessidade] não como formas negativas e sim pela relação da unidade de opostos operadas e ordenadas pela lei universal da natureza: a realidade por divergências e convergências, da discórdia a harmonia, do quente o frio, da guerra a paz, da vida a morte, do caos a ordem, multiplicidade e unidade. Heráclito pensa o devir num ininterrupto fluir das transformações do real, através da geração e corrupção e pelas múltiplas e contínuas trocas – uma mobilidade perpétua.
No devir heracliteano ao se refetir a temática da polaridade do real empregada pela luta dos contrários, que segundo o autor, rege de forma ordenada o universo e a existência. Nessa incessante luta dos opostos, com efeito, demonstra que as oposições e transformações radicais operadas na e pela natureza não são instauradas de forma caótica ou desordenada, dispersando-se, assim, na multiplicidade; ao revés, da coexistência dos contrários está pressuposto a busca, nas palavras do filósofo de Êfeso, da harmonia na constituição das coisas, na natureza – na phýsis.
Na coexistência e diálogo permanente dos opostos gera a mais perfeita harmonia, por convergerem dão sentido ao funcionamento de tudo no universo, incluisive o ser. Dissso decorre, de um jogo de afirmação e negação, permitindo uma análise das partes que as constituem e que se relacionam, que por fim, pode-se ter uma visão sintética da realidade. A identidade que vislumbra-se aqui, é equivalente a unidade dos opostos, mas indentidade na oposição, ou melhor explicando em seu conceito, tal conceito fruto do próprio pensar os termos da oposição em uma relação a eles atribuída pelo pensamento, precisamente enquanto indentidade, relação que se põe como passangens entre ambos. Essa identidade dos opostos que deriva de um ato do pensar não atingida pela observação empírica.
Logo, somente no devir heracliteano, a mudança contínua abarca a realidade, dessa maneira nada permanece idêntico, nada permance igual, devido a tudo se transfomar no seu oposto. Tudo se baseia na mudança, no fluir pepétudo do devir, sendo a realidade harmonia dos contrários. Da harmonia faz parte, essencialmente e absolutamente uma diferença. Esta harmonia é precisamente o absoluto devir, transforma-se – não devir outro, agora este, depois aquele.
A ideia de geração e corrupção das coisas já se mostra em filósofos antecessores a Heráclito, mas o que está em jogo em Heráclito é que tal movimento gera a lógica do devir [a morte de uma vida é sempre a vida de outra].
Pela concepção do devir heracliteano se mostra uma grande novidade, que é pela abordagem de como contrários estão em eterno conflito, em contínua mudança de estado para o outro, da passagem de um para outro, que por fim, ambos os contrários se transformam continuamente na mesma coisa. Heráclito considera esse fato como a lógica de tudo no universo, e que tudo está sob a ordenação das leis naturais.
A tese do devir universal, onde: nada existe de estável e definitivo na natureza; tudo muda continuamente – “Tudo se move, tudo escorre” (panta rhei), nada permanece imóvel e fixo, tudo muda e se transmuta, sem exceção. Tudo então, está submetido a um eterno fluir e a vida requer contradição, antagonismo, guerra. Cada coisa está submetida ao tempo e a transformações infinitas; não há nada no mundo verdadeiramente estático e mesmo o que parece parado ou constante é na realidade mutável, como a água do rio.
No que tange a origem das coisas, diz Heráclito, “o princípio é o fogo”. O arché princípio gerador da realidade, consiste no fogo. Com efeito, tanto os fragmentos como a tradição indireta indicam claramente que Heráclito coloca o fogo como "princípio" fundamental, considerando todas as coisas como transformações do fogo. Evidencia-se por que Heráclito adjudicou ao fogo a natureza de todas as coisas: o fogo expressa de modo exemplar as características de mudança contínua, contraste e harmonia. Com efeito, o fogo é continuamente móvel, é vida que vive da morte do combustível, é a contínua transformação do combustível em cinzas, fumaça e vapores, é perene “necessidade e saciedade”. Mas então, por que todas as coisas estão em devir? Heráclito, afirma que, o devir realiza-se por meio da contínua passagem de contrário a outro.
Portanto, a lei que regula o mundo é aparentemente a guerra, o contraste entre os elementos opostos em perene e recíproca alternância. Sim, os contrários se opõem, mas é tanto mais verdade que, ao opor-se, estabelecem um todo harmônico. A vida existe onde não há conciliação dos contrários mas luta e oposição. Entre os opostos há uma guerra constante, mas também uma secreta harmonia, uma mútua necessidade. Em cada contradição está implícita uma harmonia.

Referências bibliográficas

COSTA. A. Heráclito: fragmentos contextualizados. Tradução e comentários por Alexandre Costa. Rio de Janeiro: DIFEL, 2002.

HEGEL, F. [Preleções sobre a História da Filosofia. Heráclito – Crítica Moderna]. In: Os Pré-Socráticos. Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo, Abril Cultural, 1978.

HERÁCLITO DE ÉFESO. Fragmentos. In: Os Pré-Socráticos. Fragmentos, Doxografia e Comentários. São Paulo, Abril Cultural, 1973.