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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Resumo do Górgias de Platão


O diálogo inicia-se com a chegada de Sócrates e Querefonte a casa de Cálicles, que pretendem, efetivamente, interrogá-lo acerca daquilo que ele é, já que desejam ser esclarecidos sobre a arte que Górgias exerce e, consequentemente, acerca do nome que lhe devem atribuir – «A minha intenção é perguntar-lhe Sócrates, qual é a virtude própria da sua arte e que arte é essa que ensina e professa. Verifica-se, perante estas duas problematizações colocadas pelo mestre da filosofia, a saber, a moral (qual a virtude da arte de Górgias) e a lógica (definição da retórica), o início de um confronto de argumentos, onde se diferenciam dois grupos distintos: o primeiro constituído por Górgias, Polo e Cálicles (defensores da retórica) e outro por Sócrates e Querefonte (no território da Filosofia). Durante o diálogo, Górgias, Polo e Cálicles vão elaborando definições, um tanto subjetivas e pouco rigorosas, da arte por eles praticada. O primeiro a fazê-lo é Polo que começa por se referir às experiências, afirmando que estas orientam a vida do homem, enquanto que a inexperiência fá-lo caminhar ao acaso; deste modo, Polo considera a retórica uma atividade empírica.
Para Cálicles, a retórica são os “recursos oratórios”, ou seja, o orador considera a retórica como um jogo de argumentos cuja finalidade é a persuasão do auditório. Por fim, Polo, Cálicles e Górgias concluem, definitivamente, o que é para eles a retórica e chegam à conclusão de que esta se refere às “coisas belas”; que “a arte que cultiva é a mais bela de todas” e, que é escolhida pelos melhores, por ser a melhor das artes. É, além disso, considerada uma arte universal por Cálicles, na medida que este faz alarde da sua omnisciência, da sua capacidade de responder a todas as perguntas que lhe desejem colocar.
O grupo dos oradores acaba por não definir a retórica, mas por valorizá-la e, ao ser valorizada, é colocada no plano da subjetividade, o mesmo é dizer no plano da aparência (da aparente possibilidade de chegar à verdade). Em suma, verifica-se, já, uma oposição radical entre os processos e as finalidades dos oradores (retórica e persuasão) e os dos filósofos (dialéctica e verdade).
O diálogo entre Sócrates e Górgias começa naturalmente com a definição de retórica dada por este último. É verdade que Górgias inicialmente, define a retórica como a arte dos discursos, para além, de se glorificar de ser um “bom orador” (plano da valoração). É, nesta sequência que Sócrates vai perguntar a Górgias: “És capaz de formar outros oradores?” Para Górgias, ensinar implica tornar os discípulos 'hábeis em discursos” e, isto é, para ele formar envolve, por um lado, a fidelidade de um discípulo ao ensinamento do mestre, ainda que os ensinamentos sejam falsos e, por outro, formar implica ensinar a seduzir o auditório. Deste modo, Górgias vem sublinhar o fato da retórica não se interessar pela verdade, limitando-se apenas à aparência e à ilusão - “toda a sua ação e eficácia se realizam através das palavras”, ou seja, pelos discursos. Górgias, colocando-se no plano da valoração, refere que a retórica não se ocupa de todo o tipo de discursos, mas daqueles que têm por objecto “os maiores e as melhores coisas humanas”. Por isso, ela constitui “o maior de todos os bens” (objecto específico), que confere liberdade para o orador e domínio sobre os outros na cidade, que significa o poder de persuadir por meio do discurso os juízes no Tribunal, os senadores no Conselho e o povo na Assembleia.
Segundo as palavras do orador conclui-se que, ao ser obreira da persuasão, a retórica é uma prática autocrática e injusta, que influencia na aplicação da justiça, na produção da lei e persuade os cidadãos, que se tornam escravos do orador – “com este poder farás teus escravos o médico e o professor de ginástica (…)”. Esta fala evidencia o estado de decadência do regime democrático grego. Górgias dá-nos, também, a conhecer que o objeto da retórica, no plano da moral, é o “justo e o injusto”. Esta definição do objeto da retórica vai fazer com que Górgias entre em contradição e seja apanhado pela armadilha moral. De fato, Sócrates vai desenvolver um raciocínio lógico em que vai obrigar Górgias a aceitar as suas conclusões e a reconhecer o caráter contraditório do seu discurso.
Efetivamente, Górgias vai concluir que o homem justo tem de exercer a justiça e a retórica tem de praticar a justiça, desmentindo os princípios de que partira. Através da distinção entre crer e saber, a retórica, ao persuadir o auditório, se coloca no domínio da crença (o orador seduz o auditório, que fica com uma ideia geral das teses e é, assim, persuadido pelo seu discurso argumentativo). Se a retórica está associada à crença e se o orador é dotado de força e poder, esta pode ser caracterizada como uma arte competitiva. De fato, enquanto a filosofia (uma arquitetura de conceitos) nos remete para o plano da verdade e do Ser, a retórica situa-se no plano da aparência e é esta conclusão a que Sócrates chega: “Não precisa a retórica de conhecer a natureza das coisas, mas tão-somente de encontrar um meio qualquer de persuasão que faça aparecer aos olhos dos ignorantes mais entendida do que os entendidos”.
Finalmente, Sócrates elabora a sua definição de retórica, referindo que esta não é uma arte pois não implica o saber, logo pertence ao plano da crença; considera-a uma atividade empírica, visto que provém das experiências; afirma que esta visa apenas o prazer do corpo e da alma; e, por fim, reconhece-a não como sendo uma arte, mas como uma ocupação que desenvolve um espírito intuitivo e empreendedor, consequência da prática da persuasão na assembleia. Para além disso, a retórica afasta-se do território do Ser para se aproximar do plano da aparência.
Logo, aparentemente a retórica não pode ser um discurso moral nem um discurso lógico, sendo, portanto, simplesmente uma adulação. Para chegar a esta conclusão, Sócrates admitiu a existência de quatro tipo de arte: as relativas ao prazer do corpo (a ginástica e a medicina) e as relacionadas com a alma (do lado do bom, do belo e do justo), a legislação e a justiça. Considera, também, quatro tipos de adulação: as do corpo (toilette e cozinha) e as da alma (sofística e retórica). Em suma, através de comparações, constata-se que a retórica é uma espécie de "cozinha da alma", porque ela é para a alma o que a cozinha é para o corpo, ou seja, não procura a saúde nem a beleza verdadeira, mas apenas aparente, superficial e artificial, interessa-se pelo prazer imediato e pode ser a ruína da saúde. Deste modo, a retórica é “um disfarce” que não pode ser senão algo de feio “porque visa o agradável sem a preocupação do melhor”.
Por fim, as sucessivas concordâncias de Polo e o silêncio de Górgias em relação à argumentação do mestre da dialéctica são a melhor prova de que nada têm a opor a esta refutação de retórica, tal como eles a tinham apresentado: a retórica desprovida de preocupações no plano moral, a retórica como pura obreira da persuasão, que faz crer sem conhecer, que persuade e não ensina.
É a partir de 449 a que Górgias dá uma definição da retórica. Diz, por um lado, que «a [sua] arte é a retórica» e, por outro, que o objeto dessa arte é os discursos. Mas, o caminho que leva a esta definição da retórica por parte de Górgias merece ser contextualizado uma vez mais, a saber: trata-se de uma consequência do diálogo construído por Sócrates em torno de perguntas e respostas, a maiêutica socrática, que mais não é do que, enquanto ferramenta do pensar, o território da lógica (definição; dedução / demonstração) e, enquanto essência do pensar, o território da metafísica, a abertura do sendo ao Ser, através do desvelar que a verdade implica. De fato, a radicalidade da palavra filosófica, do logos, é sinônimo de coerência, de harmonia.
Sendo a arte de Górgias a retórica, sendo ele um orador, impõe-se lógica e metafisicamente esta questão de Sócrates: «és capaz de formar outros oradores?”. E impõe-se esta questão em dois planos: formar implica formar no uso do logos; em contrapartida, formar implica formar no desvelar do Ser que se alcança pela verdade. Não é isto, obviamente, o que entende Górgias. Para ele formar é tornar os discípulos «hábeis em discursos». Para ele formar é fazer com que os discípulos pensem «sobre aquilo que dizem». Ou seja, formar é formar o discurso do orador, formar é formar a persuasão do orador perante uma assembleia. Que, como já analisamos anteriormente, nada tem a ver com a verdade, mas sim com a ilusão, e nada tem a ver com o Ser, mas sim com a aparência. Górgias sublinha isto mesmo em: «toda a sua [da retórica] ação e eficácia se realizam através da palavra», através dos discursos. E, mais uma vez, Górgias não se apercebe da distinção que Sócrates vem tecendo. E, seguro da consistência dos seus argumentos, Górgias distancia cada vez mais o território da Filosofia do território da retórica, concretamente quando diz: «É a [retórica] que, na realidade, constitui o maior de todos os bens, proporcionando a quem a possui ao mesmo tempo liberdade para si próprio e domínio sobre os outros na cidade”. Mas Górgias vai ainda mais longe: «É a capacidade de persuadir pela palavra os juízes no Tribunal, os senadores no Conselho, o povo na Assembleia, enfim, os participantes de qualquer espécie de reunião política. E, aparentemente inebriado pelo peso da (sua) palavra, do (seu) discurso, ainda consegue ir mais longe: «Com este poder farás teus escravos o médico e o professor de ginástica [é a resposta de Górgias às analogias de Sócrates sobre a ação e a eficácia], e até o grande financeiro chegará à conclusão de que arranjou o dinheiro não para ele, mas para ti, que sabes falar e persuades a multidão”. Palavras de orador, mas também palavras de poder, do poder que atravessa a decadência da democracia ateniense. Um poder evidentemente autocrático, um poder evidentemente injusto – uma desarmonia social, portanto, uma vez que a liberdade está do lado do orador enquanto ao auditório só resta a submissão. Estranha liberdade esta, que irradia de um eu no ato de subjugar os outros. Mas, a palavra filosófica é capaz de trazer à luz (maiêutica) a verdade, como, de fato, é verdade esta súbita afirmação de Górgias: «(…) o seu [da retórica] objeto é o justo e o injusto», a harmonia e a desarmonia, a verdade e a falsidade, o Ser e a Aparência, e, assim sendo, quem poderá distinguir estes pares tão fechados na ilusão, tão fechados na crença? A resposta parece evidente: só a palavra filosófica, na sua radicalidade, o logos, é capaz de distinguir estes pares, porque a palavra filosófica não pertence ao território da crença, mas sim ao território do saber.
É o que conclui Sócrates: «Não precisa a retórica de conhecer a natureza das coisas, mas tão-somente de encontrar um meio qualquer de persuasão que a faça aparecer aos olhos dos ignorantes como mais entendida que os entendidos.».